Retalhos
Venha para casa Geraldo, deixe de ser mal ouvido!
Ô meu filho, quem é que está falando com você?
Já vou mãe! - Ela entrava, daqui a pouco chegava à janela:
Ô meu filho, venha pra dentro de casa!
Espere aí mãe! Estou brincando!
Você já brincou demais! Pois, depois entre, não demore!
Você é teimoso demais! Quero ver quando seu pai chegar!
Tem uma coisa, vai se arrepender viu?!
Fazer açudes na areia após a chuva era um paraíso encantado e sem fim!
Com meus carrinhos de madeira, carregados - brincava de atoleiro feito um carro de verdade no riacho enfrente a minha casa.
O plástico quase não havia chegado às lojas.
Eu mesmo era o inventor de meus carros de brinquedos!Uma pisa de vez em quando ajudava a recompor a disciplina crua e rígida de meu pai.
Os banhos de rio causavam em meu pai medo que eu me afogasse, mas eu me deslumbrava nos poços do rio Seridó; contudo, me esquecia que havia casa para morar. As horas passavam-se como vento nos espinhos do xiquexique.
Isso é hora de chegar a casa meu filho? Seu pai vai lhe matar de uma surra!
Meu nariz ficava vermelho que só pimenta malagueta! O medo me sucumbia!
Passe pra dentro logo! Vai estudar. Hoje tem prova? Você prometeu que não iria mais ao banho de rio! Oh mãe!
O futuro estava beirando meu caminho! Entra! Cadê a bicicleta?
Eu já disse a você para não andar com esses amigos!Já pegou no livro hoje?
A professora disse que você leva o tempo em brincar na escola! Eu quero saber o que você está pensando da vida! Pensa que é brincadeira?!
Brincadeira, livros, avisos, atenções...
Eu misturava brincar com versos e, o que era sério eu desabrochava!
Mamãe era uma artesã fortíssima!
Aprendi a compor observando na almofada, o trocadilho dos dedos com os bilros; o belo das rendas feitas com linhas de algodão mocó. Ensinava-me português, sem saber que havia ortografia nem essa tal de lingüística aplicada!
Ensinou-me a rezar e conter os pensamentos maus; zelar a roupa que vestia e cuidar bem da aparência pessoal.
Com retalhos de tecidos, confeccionava nossas camisas arrojadas da moda. Era eu!
Um menino simples sem portões eletrônicos e suítes ricas! E à noite, nossos irmãos, dormíamos numa mesma sala, em humildes redes de tear, com lençóis de panos de sacos de açúcar. Por fim, tudo se repetia ao novo dia com novas histórias depois de um sono bem dormido! Abênção mãe!?




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